quinta-feira, 23 de novembro de 2017

A canção de Hyperion

A canção de Hyperion
Oh santos génios! Vós caminhais,
lá por cima, em luz, sobre terra suave.
Brilhantes deuses etéreos
Tocam-vos levemente,
Qual os dedos da artista
nas cordas santas

Sem destino, como a criança
Adormecida, os anjos respiram;
Castamente guardado
Em discretos botões,
O espírito floresce-lhes,
Eterno,
E os santos olhos
Vêem em silenciosa
E eterna claridade.

Nós, porém, fomos condenados a errar,
Sem descanso, p’la terra fora.
Ao acaso, de uma
Hora para a outra,
Os homens sofredores
Somem-se e caiem,
Como a água atirada de
Recife para recife,
Ano após ano, na incerteza

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

neste intervalo de terra prometida / e de deserto


jubilação de nomes
ajuda-nos, Deus,
a sair do labirinto das coisas (mal)ditas,
a meada da retórica
que debita a máscara
tu que és a graça e o rigor
das linhas desenhadas,
a onda que regressa e que advém
neste intervalo de terra prometida
e de deserto
empresta ao nosso ouvido
a graça da rocha mãe do solo,
a cedência ao ritmo do que vem de longe,
e se não prescreve
e que a tua alegria permaneça

por JOSÉ AUGUSTO MOURÃO
(de 'dizer DEUS ao (des)abrigo do Nome', 1991)

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

núpcias.

O conhecimento de Deus é nupcial, para o poeta religioso. 
(...) A grande poesia religiosa é interrogativa, e não apenas assertiva. Mais evocativa do que afirmativa. Como uma prática iconoclasta da linguagem. 
JOSÉ AUGUSTO MOURÃO


quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro / Sabendo que o real o mostrará

Poema

A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará

Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento

A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento

E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada

                   Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

O religioso.

"O religioso é onde tudo se desenha, mesmo quando não sabemos. Isso que nos está falando sem nos falar."
EDUARDO LOURENÇO

segunda-feira, 5 de junho de 2017

nenhuma ilha era assim tão solitária

Mesmo em meio à guerra, ao isolamento imposto a toque de clarins, Margarida ouvia a música entrando em toda fresta de seu quarto. Não sabia dizer se era orquestra, cadetes feridos praticando algumas notas, se era a radiola de algum general de alta patente que, como todos ali, seguia doente esperando o armistício, Margarida não sabia dizer. Mas era o que menos importava, pensava, porque não era o dizer que falava mais alto naqueles momentos. Antes, bem antes, era o vento soprando a clarineta, ou o tiquetaquear das horas sobre as cordas do violoncelo. Margarida se calava, simplesmente, a ouvir aquele som escorrendo pelo batente, transbordando as venezianas, pintando de outras chamas o inferno que ia fora, nos frontes de batalha, e mesmo dentro de algumas pequenas casas, com suas camas, padiolas e mortalhas. Entre uma costura e outra, no passo de um e outro ilhós, Margarida ouvia o ar dizendo, as cordas pelo ar soando, que nenhuma ilha era assim tão solitária, e que mesmo sendo a guerra meio eterna, nunca eram eternos os frontes de batalha.
Leandro Durazzo

sábado, 3 de junho de 2017

Dentro dela há pouco espaço, / ela só me tem amor.

'Senhor, liberta-me de mim mesmo' 
para que eu possa esconder-me dentro 
delas. Dentro dela há pouco espaço, 
ela só me tem amor. Compra-me cigarros, cozinha-me refeições, expõe-me 
como refugiado aos efeitos benéficos do álcool – e aguarda.
Aguarda que lhe devolva amor.
Por isso, Senhor, peço: 'liberta-me 
de mim mesmo' para que eu possa esconder-me 
dentro delas, das paredes. 
Dois metros e vinte por outros tantos ou mais é espaço suficiente 
para que possa esconder-me e servir-Te como mereces: 
erguer-Te uma capela, pintar-Te um fresco, ser genial para Ti, Senhor,
liberto de mim mesmo 
por dentro das paredes 
do útero dela.

in A Habitação de Jonas, 2013
Inês Fonseca Santos 

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Talvez precisemos voltar a essa arte tão humana que é a lentidão. 
TOLENTINO MENDONÇA

segunda-feira, 17 de abril de 2017

She looked at the trees.


‘‘Não me habituo: não posso ver uma árvore sem espanto.’’ Raul Brandão


LOST, LOST, LOST, Jonas Mekas (1976)


ONE DESIRE, Jerry Hopper (1955)

Sylvia, Christine Jeffs, 2006


The Munekata sisters, Ozu (1950)
Sound of the Mountain, Mikio Naruse, 1954