A gratidão verdadeira agradece tudo, pois sabe que se matura em modos diferenciados a complexa arquitetura da vida. Agradece o grandioso e o minúsculo; o horizonte desimpedido e vasto e a pequena fresta imprecisa; a experiência oceânica do ilimitado e o que parece neste momento dolorosamente circunscrito. Agradece a noite, que pode ser interminável e áspera, mas que estende acima de nós as estrelas. Arrisca agradecer aquele vazio que primeiro considerámos como um indesejado espinho, mas que depois surpreendentemente perfuma o nosso mundo interior como se fosse uma rosa. E aquele silêncio que nos derruba com um peso insustentável e que em seguida veremos transformar-se em oportunidade de caminho e de graça. Uma arte de gratidão genuína é aquela que não teme agradecer até os contratempos, até as feridas, até a vulnerabilidade, até os recuos, pois não raro, são eles que nos permitem alcançar uma consciência de nós próprios e uma sensibilidade à vida que não possuíamos ainda. Quando nos dispomos a agradecer assim a vida que se diria apressadamente escassa, feita de balbucios hesitantes e de minúsculos passos, constatamos que ela se revela afinal plena e transbordante, como não julgaríamos possível.
© JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA
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