mortos? Onde existe o seu
tempo de vivos? Há dias em que
o traço desses dias
morre infinitamente e todavia o filme
de actos findos
continua a passar numa tela vazia
GASTÃO CRUZ
O Poeta |
| Ninguém contempla as coisas admirado. Dir-se-á que tudo é simples e vulgar... E se olho a terra, a flor, o céu doirado, Que infinda comoção me faz sonhar! É tudo para mim extraordinário! Uma pedra é fantástica! Alto monte, Terra viva a sangrar, como um Calvário E branco espetro, ao luar, a minha fonte! É tudo luz e voz, tudo me fala: Ouço lamúrias de almas no arvoredo Quando a tarde tão lívida se cala Porque adivinha a noite e lhe tem medo Não posso abrir os olhos sem abrir Meu coração à dor e à alegria. Cada coisa nos sabe transmitir Uma estranha e quimérica harmonia! É bem certo que tu, meu coração, Participas de toda a Natureza. Tens montanhas na tua solidão E crepúsculos negros de tristeza! As coisas que me cercam silenciosas São almas a chorar que me procuram. Quantas vagas palavras misteriosas Neste ar que aspiro, trémulas, murmuram! Vozes de encanto vêm aos meus ouvidos, Beijam meus olhos sombras de mistério. Sinto que perco, às vezes, os sentidos E que vou a flutuar num rio aéreo... |