PARAÍSOS NA SALA ESCURA
PROJECÇÃO, GRANDE NOITE DOS OLHOS ABERTOS.
“ O cinema-menino teve a feira como presépio e nasceu de entusiastas da
invenção. Não passou muito tempo até aparecer quem vislumbrasse na divina
máquina de filmar um instrumento de conhecimento.“
REGINA GUIMARÃES sobre BORIS LEHMAN
No seu filme, “L’homme portant son film le plus lourd”, o realizador
belga Boris Lehman atravessa uma catedral. A câmara constante segue em
retaguarda a sua figura, que às costas carrega um ecrã onde um dos seus filmes
passa ininterruptamente. Se o olhar do espectador acompanha a surrealidade
daquele ecrã caminhante, que avança para dentro da escuridão, a possibilidade
de continuar a assistir a estas imagens perde-se quando o corpo sai para o
exterior. Uma vez perdida a escuridão e, por consequência, a imagem fílmica, é
inevitável que imediatamente nos relembremos de como uma das mais fundamentais
características necessárias à projecção é a penumbra que caracteriza também o
recolhimento num espaço de culto religioso. Avançar no traçar de paralelos
entre os critérios que pautam a morfologia típica da igreja cristã é recolher
ressonâncias com as condições que possibilitam a plenitude do espectáculo
cinematográfico. Arriscamos ver ainda rimar as condições de solenidade que identificam a celebração
ritual: talvez haja tensão dos corpos dos espectadores, em colectivo suspenso na sala escura, como há vulnerabilidade a reunir a uníssona plateia na eucaristia. A noite da sala escura é um mundo fechado - a luminosidade permanece nos rostos.
excerto de "Devotional Cinema", Nathaniel Dorsky








































